Corpo Discente - Egressos

Maria Aparecida Corrêa dos Santos
Título"Potencial para exploração sustentável de duas espécies de plantas medicinais das savanas do Amapá, Brasil".
Data da Defesa07/08/2024
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Banca

ExaminadorInstituiçãoAprovadoTipo
Palavras-ChavesSavanas; Barbatimão; Sucuuba; etnobotânica; ecologia aplicada; farmacobotânica.
ResumoO uso de plantas medicinais é consagrado no país e de alta aceitação pela população em geral, especialmente pela população de baixa renda, que é a principal usuária do Sistema Único de Saúde (SUS). O uso de plantas medicinais está enraizado na vida da população amapaense, e na década de 1990, auge do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá, o governo do estado investiu fortemente na produção de fitoterápicos e de fitocosméticos como alternativa ao desenvolvimento econômico e social. Ouratea hexasperma (A.St.-Hil.) Baill., Ochnaceae e Himatanthus articulatus (Vahl) Woodson, Apocynaceae, são espécies extrativistas de importância medicinal no estado e muito comuns nas savanas amapaenses. No entanto, para sua aceitação como opção terapêutica viável, no contexto da Atenção Básica à Saúde, o conhecimento quanto ao uso tradicional e disponibilidade destas espécies é fundamental. Assim sendo, este estudo se conecta com a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, especialmente no que concerne as diretrizes 9, 10 e 11, que se referem à garantia da qualidade, a promoção e reconhecimento das práticas populares de uso de plantas medicinais e remédios caseiros, e adoção das boas práticas de manipulação de plantas medicinais. A partir dessas premissas, este estudo teve como objetivo demonstrar o potencial de ambas as espécies para compor as listas de plantas reconhecidas pelo Ministério da Saúde, assim como contribuir para a qualidade na produção de medicamentos fitoterápicos no Amapá. O estudo etnobotânico utilizou dados obtidos em revisões sistemáticas sobre O. hexasperma e H. articulatus e informações de entrevistas guiadas por questionários padronizados. Em relação à disponibilidade dessas espécies, foram analisados dados de levantamentos florísticos e fitossociológicos realizados nas savanas amapaenses em anos anteriores. O exame de documentos nacionais e internacionais sobre boas práticas na coleta e cultivo de plantas medicinais levantou os aspectos a serem considerados na proposição de boas práticas para o extrativismo das espécies-alvo nas savanas amapaenses. A análise farmacobotânica e a prospecção fitoquímica preliminar de amostras coletadas no Amapá seguiram os métodos da Farmacopeia Brasileira e bibliografia complementar. A revisão sistemática sobre O. hexasperma selecionou 91 artigos dos quais sete referem-se ao uso medicinal; em relação a H. articulatus, a revisão sistemática indicou 153 artigos, sendo 18 relacionados ao uso medicinal. Partindo da premissa de que são recomendados pelo menos 30 anos de registro de uso seguro e efetivo para efeito de comprovação de tradicionalidade, os dados resultantes da revisão sobre as espécies não servem a esse fim uma vez que os achados mais remotos datam de 1994, para H. articulatus, e de 1998, para O. hexasperma. Ao mesmo tempo, a revisão sistemática sobre essas espécies confirmou que ambas são pouco estudadas cientificamente, e mostrou que, apesar de os estudos existentes envolverem várias áreas do conhecimento, o uso medicinal é o que determina a realização de pesquisas especificamente voltadas para elas. As entrevistas confirmam o uso das entrecascas de ambas as espécies que norteiam a elaboração dos fitoterápicos. A coleta das entrecascas é feita de modo parcimonioso, sem intenção de armazenamento, embora isso seja possível, uma vez que o senso comum diz que as plantas sempre estarão disponíveis para uso. Esse pensamento é reforçado pelo fato de a coleta poder ser feita em qualquer época do ano, sem comprometimento da qualidade da parte medicinal. Ainda assim há a preocupação de que esta prática não comprometa a integridade dos indivíduos e, por consequência, com a conservação das espécies. A análise dos resultados deste estudo e outros dados existentes tornou possível sinalizar para a viabilidade do extrativismo sustentável de O. hexasperma e H. articulatus, assim como o uso de parâmetros fitossociológicos juntamente com a distribuição espacial mostraram-se importantes para a indicação de áreas para extrativismo dessas espécies no Amapá. Assim sendo, os mapas de distribuição gerados mostraram a potencial ocorrência de O. hexasperma nas regiões de Porto Grande, Itaubal do Piririm e Macapá, e de H. articulatus, na região de Tartarugalzinho, Itaubal do Piririm e Macapá. Esses mapas serão úteis para tornar mais fácil e ágil a escolha de áreas para obtenção das matérias-primas vegetais provenientes das espécies em questão. A documentação sobre boas práticas revelou que para a definição de diretrizes para coleta, transporte e armazenamento de plantas medicinais oriundas de extrativismo deve ter como principais aspectos a qualidade, que se refere aos cuidados que devem ser tomados para manter as propriedades terapêuticas das plantas durante a coleta e transporte, e as embalagens, que funcionam como barreira física aos contaminantes. Todos esses aspectos refletem a preocupação com a segurança dos usuários. Também devem ser levados em consideração os cuidados com as espécies, através da adoção de métodos de coleta não destrutivos e do uso parcimonioso das espécies. A descrição de O. hexasperma e H. articulatus realizada por este estudo é um importante ponto de apoio para a garantia da identidade botânica dessas espécies, sendo útil no seu reconhecimento em campo, assim como das drogas vegetais. Ao mesmo tempo, a prospecção fitoquímica demonstrou a presença de classes de compostos que são importantes ao estabelecimento de parâmetros para análise da qualidade dessas matérias-primas e indicativas da importância farmacológica dessas espécies, além de servir de estímulo para a realização de estudos mais aprofundados. A análise macroscópica das cascas e a prospecção fitoquímica preliminar de O. hexasperma e H. articulatus indicaram características úteis para a identificação da droga vegetal, principalmente quando comercializadas sem a devida identificação botânica. O conjunto de informações geradas acrescenta valor a estes recursos e reforça a importância terapêutica dessas espécies. É importante destacar que alguns dos aspectos aqui abordados estão na pauta da OMS há muitos anos e, com base nisso, este estudo coloca O. hexasperma e H. articulatus como boas candidatas para compor listas oficiais do Ministério da Saúde, a começar pela lista espécies da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS).
AbstractThe use of medicinal plants is well-established in the country and is widely accepted by the general population, but especially by the low-income population, which is the main user of the Unified Health System (SUS). The use of medicinal plants is rooted in the lives of the population of Amapá, and in the 1990s, at the height of the Sustainable Development Program of Amapá, the state government invested heavily in the production of phytotherapeutics and phytocosmetics as an alternative to economic and social development. Ouratea hexasperma (A.St.-Hil.) Baill., Ochnaceae and Himatanthus articulatus (Vahl) Woodson, Apocynaceae, are obtained by extractivism in the savannas of Amapá and are of great medicinal importance in the state. However, for their acceptance as a viable therapeutic option in the context of Primary Health Care, knowledge about the traditional use and availability of these species is essential. Therefore, this study is connected to the National Policy on Medicinal Plants and Phytotherapeutics, especially regarding guidelines 9, 10 and 11, which refer to quality assurance, promotion and recognition of popular practices of use of medicinal plants and homemade medicines, and adoption of good practices for handling medicinal plants. Based on these premises, this study aimed to demonstrate the potential of both species to compose the lists of plants recognized by the Ministry of Health, as well as to contribute to the quality of the production of phytotherapeutic medicines in Amapá.The ethnobotanical study used data obtained from systematic reviews on O. hexasperma and H. articulatus and information from interviews guided by standardized questionnaires. Regarding the availability of these species, data from floristic and phytosociological surveys carried out in the savannas of Amapá in previous years were analyzed. The examination of national and international documents on good practices in the collection and cultivation of medicinal plants raised the aspects to be considered in proposing good practices for the extraction of target species in the savannas of Amapá. The pharmacobotanical analysis and preliminary phytochemical prospecting of samples collected in Amapá followed the methods of the Brazilian Pharmacopoeia and complementary bibliography. The systematic review on O. hexasperma selected 91 articles, of which seven refer to medicinal use; in relation to H. articulatus, the systematic review indicated 153 articles, of which 18 related to medicinal use. Based on the premise that at least 30 years of safe and effective use are recommended for the purpose of proving traditionality, the data resulting from the review on the species do not serve this purpose since the earliest findings date back to 1994, for H. articulatus, and 1998, for O. hexasperma. At the same time, the systematic review on these species confirmed that both are little studied scientifically, and showed that, although existing studies involve several areas of knowledge, medicinal use is what determines the carrying out of research specifically focused on them. The interviews confirm the use of the inner bark of both species to guide the preparation of phytotherapeutic products. The collection of the bark is done sparingly, with no intention of storing it, although this is possible, since common sense dictates that the plants will always be available for use. This idea is reinforced by the fact that the collection can be done at any time of the year, without compromising the quality of the medicinal part. Nevertheless, there is concern that this practice does not compromise the integrity of the individuals and, thus, the conservation of the species. The analysis of the results of this study and other existing data made it possible to indicate the viability of sustainable extraction of O. hexasperma and H. articulatus, just as the use of phytosociological parameters along with spatial distribution proved to be important for indicating areas for extraction of these species in Amapá. Therefore, the distribution maps generated showed the potential occurrence of O. hexasperma in the regions of Porto Grande, Itaubal do Piririm and Macapá, and of H. articulatus in the region of Tartarugalzinho, Itaubal do Piririm and Macapá. These maps will be useful in making it easier and faster to choose areas to obtain plant raw material from the species in question. The documentation on good practices revealed that the main aspects of defining guidelines for the collection, transportation, and storage of medicinal plants from extractivism must be quality, which refers to the care that must be taken to maintain the therapeutic properties of the plants during collection and transportation, and packaging, which acts as a physical barrier to contaminants. All of these aspects reflect the concern for user safety. Care for the species must also be taken into consideration, through the adoption of non-destructive collection methods and the sparing use of the species. The description of O. hexasperma and H. articulatus carried out by this study is an important support point for guaranteeing the botanical identity of these species, being useful for their recognition in the field, as well as for herbal drugs. At the same time, phytochemical prospecting demonstrated the presence of classes of compounds that are important for establishing parameters for analyzing the quality of these raw materials and indicative of the pharmacological importance of these species, in addition to serving as a stimulus for conducting more in-depth studies. Macroscopic analysis of the bark and preliminary phytochemical prospecting of O. hexasperma and H. articulatus indicated useful characteristics for identifying the herbal drug, especially when marketed without proper botanical identification. The set of information generated adds value to these resources and reinforces the therapeutic importance of these species. It is important to highlight that some of the aspects addressed here have been on the WHO agenda for many years and based on this, this study places O. hexasperma and H. articulatus as good candidates for inclusion on official lists of the Ministry of Health, starting with the list of species in the National List of Medicinal Plants of Interest to the SUS (RENISUS).
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