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Pesquisadoras ligadas à Rede Bionorte desenvolvem estudo que transforma resíduos de andiroba em corantes naturais sustentáveis
Pesquisadoras da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e do Instituto Superior de Engenharia do Instituto Politécnico de Coimbra, em Portugal, desenvolveram um estudo inovador que demonstra o potencial das cascas do fruto da andiroba (Carapa guianensis) como fonte sustentável de corantes naturais para a indústria têxtil.
A pesquisa contou com participação da doutoranda Kellyane Cesar, do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Rede Bionorte), além das professoras Rosa Mourão e Sandra Sarrazin, docentes vinculadas ao programa. O trabalho também envolveu colaboração internacional das pesquisadoras Nazaré Pinheiro e Filipa Fonseca, do Instituto Politécnico de Coimbra.
O estudo foi desenvolvido durante o doutorado sanduíche de Kellyane Cesar em Portugal, fortalecendo a cooperação científica internacional e ampliando a visibilidade da pesquisa amazônica em temas ligados à sustentabilidade, biodiversidade e inovação.
Intitulado “Valorization of Carapa guianensis Fruit Waste as a Sustainable Source of Natural Textile Dyes”, o trabalho apresenta uma alternativa ecológica para o tingimento têxtil sustentável a partir do aproveitamento de resíduos florestais amazônicos.
A pesquisa foi publicada na edição de 2026 dos anais científicos da 7ª Conferência Internacional WASTES: Solutions, Treatments and Opportunities, organizada pela editora Springer.
Ciência, floresta e economia circular
O estudo mostra como resíduos gerados a partir da cadeia produtiva da andiroba podem ganhar novo valor econômico por meio da ciência e da inovação sustentável.
As cascas utilizadas na pesquisa foram coletadas na comunidade de Samaúma, no Pará, onde o agroflorestor Adamor Santos desenvolveu, com apoio de professores e estudantes da UFOPA, uma agroindústria comunitária voltada à extração a frio de óleos florestais, incluindo o óleo de andiroba.
O processo de extração gera grande quantidade de cascas que, até então, eram descartadas como resíduo. A pesquisa identificou que esse material apresenta elevada concentração de taninos — compostos naturais com forte capacidade de pigmentação — e pode ser utilizado como alternativa sustentável aos corantes sintéticos utilizados pela indústria têxtil.
A proposta reforça princípios da economia circular ao transformar resíduos florestais em matéria-prima para novos produtos de valor agregado, reduzindo impactos ambientais e ampliando oportunidades econômicas associadas à sociobiodiversidade amazônica.
Inovação sustentável com potencial de aplicação
Buscando uma abordagem ambientalmente sustentável, a equipe utilizou solventes verdes, como a água, para realizar a extração do corante natural, evitando o uso de substâncias químicas agressivas.
O extrato obtido foi aplicado no tingimento de fibras naturais como algodão, linho, lã e seda, resultando em tons beges e cinza-acastanhados. Os testes realizados demonstraram boa fixação e resistência ao desbotamento mesmo após exposição à luz solar e lavagens em diferentes temperaturas.
Além do potencial tecnológico, a pesquisa destaca a importância da integração entre universidade, comunidades tradicionais e ciência aplicada, promovendo soluções alinhadas às demandas globais por sustentabilidade e inovação limpa.
Impacto socioambiental
O estudo também demonstra como pesquisas desenvolvidas na Amazônia podem contribuir para enfrentar desafios ambientais globais, especialmente em setores com elevado impacto ambiental, como a indústria têxtil.
Ao agregar valor à resíduos florestais, a iniciativa contribui para: promover alternativas sustentáveis aos corantes sintéticos; fortalecer cadeias produtivas comunitárias; incentivar a bioeconomia amazônica; ampliar oportunidades de renda para populações tradicionais; valorizar o conhecimento associado ao uso sustentável da floresta.
Para a viabilização do estudo, as pesquisadoras destacam a contribuição de importantes parceiras: a empresa portuguesa Tintex Textiles S.A., responsável pelo suporte técnico especializado e pela disponibilização de fibras têxteis naturais utilizadas nos ensaios, e a marca paraense de moda sustentável Xibé, que colaborou com tecidos naturais e com a troca de conhecimentos sobre práticas de tingimento têxtil natural, fortalecendo o diálogo entre ciência, inovação e saberes tradicionais.
Data: 26/05/2026