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Pesquisa da Rede Bionorte identifica alterações celulares em caranguejos-uçá de manguezais do Maranhão
Estudo da doutoranda Luciana Barros Oliveira, publicado em revista científica internacional, identificou diferenças no tamanho, peso e saúde dos animais em duas áreas da costa amazônica e aponta caminhos para aprimorar o monitoramento ambiental
Maranhão, São Luís - Uma pesquisa desenvolvida pela doutoranda Luciana Barros Oliveira, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Rede Bionorte, na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), identificou alterações celulares e danos em órgãos de caranguejos-uçá (Ucides cordatus) coletados em manguezais sob influência de atividades portuárias.
Os resultados mostraram que os animais dessa região apresentaram menor peso, dimensões corporais reduzidas e maior ocorrência de determinadas lesões em comparação com exemplares de uma área de menor impacto ambiental.
O estudo foi publicado em 21 de outubro de 2026 na revista científica internacional Environmental Monitoring and Assessment, da editora Springer Nature. A pesquisa teve como objetivo avaliar a presença de elementos químicos potencialmente contaminantes e seus efeitos biológicos sobre os caranguejos em duas regiões estuarinas do Maranhão, utilizando os animais como indicadores das condições ambientais dos manguezais.
Intitulado An integrated chemical and biomarker approach using Ucides cordatus (Crustacea; Decapoda) to assess trace element contamination and its biological impacts across two Amazonian estuaries, o artigo apresenta uma metodologia que combina análises da água e dos sedimentos, dos tecidos e das células dos animais. A proposta é contribuir para a identificação de sinais de degradação ambiental que nem sempre podem ser compreendidos apenas pela medição de substâncias químicas.
Pesquisa e efeitos da contaminação nos manguezais
A investigação foi motivada pela crescente preocupação com os impactos da poluição sobre os ecossistemas costeiros, especialmente, em áreas próximas a atividades industriais, portuárias e urbanas.
Os manguezais desempenham funções importantes para a biodiversidade, oferecendo abrigo, alimentação e locais de reprodução para diferentes espécies aquáticas. Também possuem importância social e econômica para comunidades que dependem da pesca e da coleta de crustáceos para alimentação e geração de renda.
Nesse contexto, os pesquisadores escolheram o caranguejo-uçá como objeto de estudo por sua estreita relação com os manguezais. A espécie vive em contato direto com os sedimentos, onde diferentes substâncias podem se acumular, e pode incorporar contaminantes presentes no ambiente por meio da alimentação.
Essa característica permite que alterações no organismo dos caranguejos sejam utilizadas como indicadores de possíveis problemas ambientais. A proposta da pesquisa foi investigar se essas alterações poderiam ajudar a identificar os impactos da contaminação por elementos químicos, como metais, sobre a fauna dos manguezais amazônicos.
Estudo comparou duas regiões do Maranhão
O trabalho de campo foi realizado em 2021, contemplando períodos chuvosos e secos, em duas áreas da costa amazônica maranhense, nos municípios de Raposa, na Baía de São José, e em São Luís, na Baía de São Marcos.
Os pesquisadores realizaram análise das brânquias, do hepatopâncreas — órgão relacionado à digestão e ao processamento de substâncias potencialmente tóxicas — e da hemolinfa, líquido que desempenha funções semelhantes às do sangue nos crustáceos.
Também foram avaliadas características da água, como temperatura, salinidade, pH e oxigênio dissolvido, além da concentração de diferentes elementos químicos na água e nos sedimentos.
Os procedimentos incluíram análises microscópicas e testes de biomarcadores, indicadores biológicos capazes de revelar alterações celulares e nos tecidos associadas à exposição a contaminantes.
Descoberta
Uma das principais contribuições da pesquisa é demonstrar que a avaliação da qualidade ambiental pode ser aperfeiçoada quando as análises químicas são associadas às respostas biológicas dos organismos. Isso significa que, além de identificar a presença de determinadas substâncias na água e nos sedimentos, os pesquisadores podem verificar como os animais estão respondendo às condições do ambiente.
O alcance social da pesquisa está relacionado à importância econômica do caranguejo-uçá para comunidades tradicionais e trabalhadores que dependem de sua coleta e comercialização. O estudo oferece subsídios científicos para futuras iniciativas de proteção dos recursos naturais utilizados pelas populações costeiras.
Os pesquisadores destacam a importância de expandir os estudos e integrar análises químicas e biológicas em programas contínuos de acompanhamento ambiental, permitindo identificar mudanças e avaliar seus possíveis efeitos sobre os ecossistemas ao longo do tempo.
Publicação
O artigo tem como primeira autora a doutoranda Luciana Barros Oliveira, da Rede Bionorte, vinculado à Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). A publicação reúne uma equipe de 16 pesquisadores de diferentes instituições brasileiras, incluindo a UEMA, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e a Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Entre os autores estão Lina Clara Gayoso e Almendra Ibiapina Moreno, Suelen Rosana Sampaio de Oliveira, Laércio dos Anjos Benjamin, Débora Batista Pinheiro-Sousa, Gerson dos Santos Protázio, Alana Lislea de Sousa, Thales Passos Andrade, Eliane Braga Ribeiro, Jonatas da Silva Castro, Gustavo Henrique Rodrigues Vale de Macedo, Luan Jonatas da Silva Ferreira, Verônica Maria Oliveira, Débora Martins Silva Santos, Sandra Fernanda Loureiro de Castro Nunes e Raimunda Nonata Fortes Carvalho Neta.
A pesquisa contou com apoio do Laboratório de Biomarcadores em Organismos Aquáticos (LABOAq), da UEMA, responsável pelo suporte às atividades de campo e laboratoriais. O LABOAq é coordenado pela Professora Raimunda Fortes, orientadora da pesquisa e coordenadora regional da Rede Bionorte. O trabalho também recebeu financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e apoio acadêmico da Rede Bionorte.
Acesso ao artigo científico
Título original: An integrated chemical and biomarker approach using Ucides cordatus (Crustacea; Decapoda) to assess trace element contamination and its biological impacts across two Amazonian estuaries
Revista: Environmental Monitoring and Assessment
Editora: Springer Nature
Publicação: 21 de outubro de 2026
Volume: 198 | Artigo: 1237
DOI: https://doi.org/10.1007/s10661-026-16077-4
Data: 29/10/2026